Devemos rasgar o Antigo Testamento? | JP Padilha
Em um de meus artigos eu falei sobre o fato dos salmos não serem cristãos, isto é, que os salmos não foram escritos por cristãos nem para cristãos, muito embora nós possamos ser edificados, consolados e exortados por eles. Algumas pessoas se escandalizaram com esta verdade e me acusaram de estar dizendo que o Antigo Testamento não serve para nada na vida cristã. Bom, aqui vai uma explicação da mensagem que estou tentando transmitir ao leitor. Não seja tão radical na interpretação do que escrevi no artigo “Como os salmos se aplicam ao cristão”. Segue abaixo o link do artigo para quem quiser lê-lo antes de continuar a leitura deste artigo:
“Como os salmos se aplicam ao cristão?”
https://jppadilhabiblia.blogspot.com/2025/04/como-os-salmos-se-aplicam-ao-cristao-jp.html
Será que não consegui me expressar? Eu não disse para rasgar o Antigo Testamento. O que eu disse foi que adorar em verdade no Antigo Testamento significava adotar todas aquelas coisas que Deus havia estabelecido para o culto judaico. Todavia, a adoração da Igreja não é uma adoração judaica. Portanto, não encontramos elementos judaicos na adoração cristã, tais como templos, sacerdotes, dízimos, clérigos acima dos leigos, vestes especiais para clérigos, pastores dirigindo a congregação e a adoração, púlpitos ou altares para os clérigos pregarem, títulos lisonjeiros como “Pastor Fulano”, “Reverendo Beltrano”, “Doutor Sicrano”, nem instrumentos musicais na adoração, coros profissionais, cantores celebridades, incensos etc. Na doutrina dos apóstolos (que está nas epístolas) não existe nada disso. Lá encontramos apenas a adoração expressa na ceia do Senhor e em cânticos, orações e ações de graças.
Acrescentar elementos do Antigo Testamento na adoração da Igreja é uma prática que nada tem a ver com a verdade da adoração da Igreja. Ao fazer isso, o cristão pode até estar adorando “em espírito” (pois ele tem o Espírito Santo em si), mas não está adorando “em verdade” segundo a doutrina dos apóstolos. Trata-se de um culto construído com os elementos que ele achou melhor usar, como fizeram os samaritanos em seu culto judaico distorcido.
Algumas pessoas disseram, em resposta ao meu artigo sobre “como os salmos se aplicam ao cristão”, que os salmos são a única forma permitida por Deus para adoração e que as orações imprecatórias fazem parte da vida cristã. Então, eu pergunto: Em primeiro lugar, onde, na Bíblia, está escrito que os salmos são a única fonte de adoração permitida por Deus? Em segundo lugar, em qual versículo Jesus ensina a fazer as chamadas “orações imprecatórias” – amaldiçoando nossos inimigos e desejando o mal de nossos adversários? Em qual epístola isso é ensinado? Não há uma resposta bíblica para isso, obviamente.
Voltando à questão da adoração cristã, devemos sempre nos perguntar: Onde e como Deus quer que o cristão o adore? A resposta está nas epístolas, e em nenhum outro lugar. Qualquer acréscimo será invenção humana – fora da Verdade que é a Palavra de Deus. A ideia de que usar elementos do Antigo Testamento está correto por se tratar da Palavra de Deus abre as portas para uma porção de erros como temos visto na cristandade. A adoração cristã é "fora do arraial" (Hb 13.13), ou seja, fora do sistema que havia sido estabelecido para Israel. É preciso distinguir bem as diferentes partes da Palavra de Deus e como devem ser aplicadas nas diferentes épocas:
“Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem (divide bem, sabe usar bem) a palavra da verdade” (2 Timóteo 2.15 – ênfase minha).
Algumas pessoas que leram meu artigo a respeito dos salmos serem judaicos não gostaram do que eu escrevi pelo fato de acharem que eu estava dizendo que na adoração cristã não existe lugar para cânticos. Eu não disse isso. Na adoração cristã encontramos cânticos sim:
“Falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais; cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração” (Efésios 5.19).
“A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao Senhor com graça em vosso coração” (Colossenses 3.16).
Sendo assim, cantar hinos e louvores a Deus faz parte da adoração cristã. O que não faz parte da adoração cristã são os salmos que dizem respeito somente a Israel e os cantores e músicos profissionais para isso, algo que fazia sentido no Antigo Testamento quando as pessoas não tinham o Espírito Santo habitando nelas. Neste caso, a adoração era exterior, havia os levitas, os cantores, os instrumentos musicais, as roupas especiais etc. Além disso, muitos dos salmos do Antigo Testamento não coadunam com a prática cristã, e eu deixei isso bem claro no artigo anterior (Clique no link disponível no início deste artigo para mais informações sobre isso).
Os cristãos devem cantar "com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao Senhor com graça em vosso coração", como dizem os versículos acima. O problema todo acontece quando tomamos o que vemos ao redor como verdade e a partir daí buscamos na Bíblia aquilo que esteja de acordo com o que vemos na cristandade hoje. As práticas dos cristãos não são o exemplo que devemos seguir ou a régua pela qual devemos medir as Escrituras, mas exatamente o inverso. As Escrituras é que devem ser o crivo que filtra o que os cristãos devem fazer.
Os escritos do Antigo Testamento são sombras das coisas que haviam de vir (Cl 2.17), mas agora temos a realidade, que é Cristo no meio de nós e o Espírito Santo habitando na Igreja, coletivamente e no crente individualmente. A adoração cristã, obviamente, não é a mesma dos israelitas.
Na adoração cristã não existe lugar para cantores celebridades, danças, instrumentos musicais, corais, altares, incenso, animais sacrificados, templo, clérigos acima dos leigos, pastores dirigindo a congregação e a adoração etc.
Mesmo quando se utiliza algum salmo do Velho Testamento, o cristão deve ter sabedoria para entender que muitos salmos foram escritos para o povo terreno de Deus – Israel – para o qual as bênçãos prometidas eram terrenas e ao qual Deus ordenou que destruísse seus inimigos de carne e ossos. Portanto, podia fazer sentido para um israelita pedir a Deus pela destruição de seus inimigos e louvar a Deus por isso, mas isso não faz qualquer sentido para um cristão, cuja esperança está no Céu e que vive no Espírito de Cristo, Aquele que não veio aqui para matar e destruir, mas para salvar.
Esse contraste entre os modos de agir do Antigo e do Novo Testamento fica claro no modo dos discípulos judeus terem encarado as coisas segundo o exemplo que encontravam no Antigo Testamento e como o Senhor os repreendeu, mostrando que havia agora uma nova ordem de coisas:
"E os seus discípulos, Tiago e João, vendo isto, disseram: ‘Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma, como Elias também fez?’ Voltando-se, porém, repreendeu-os, e disse: ‘Vós não sabeis de que espírito sois. Porque o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las’. E foram para outra aldeia" (Lucas 9.54-56 – ênfase minha).
Fazer descer fogo do céu podia fazer sentido nos tempos de Elias, mas não agora; não para cristãos; não para a Igreja. Do mesmo modo, nenhum cristão iria hoje, de sã consciência, cantar um salmo como o 109:
"Fiquem órfãos os seus filhos, e viúva a sua mulher! Sejam poucos os seus dias, e outro tome o seu ofício! Fiquem órfãos os seus filhos, e viúva a sua mulher! Andem errantes os seus filhos, e mendiguem; esmolem longe das suas habitações assoladas. O credor lance mão de tudo quanto ele tenha, e despojem-no os estranhos do fruto do seu trabalho! Não haja ninguém que se compadeça dele, nem haja quem tenha pena dos seus órfãos!"
O fato dos salmos estarem na Bíblia, que é a Palavra de Deus, não significa que possam ser aplicados em todas as épocas e situações. Não podem. Dá para perceber claramente o quanto essa coleção de maldições está longe da dispensação atual da graça de Deus e do modo como o Senhor nos ensinou a tratar nossos inimigos. A não compreensão do Antigo Testamento como uma maneira particular de Deus tratar com o mundo e com o Seu povo terreno, Israel, durante um determinado período de tempo, é o que tem levado as pessoas a muita confusão hoje, quando cristãos tentam misturar as coisas. A Teologia Reformada do Pacto faz isso. Esse tipo de teologia emburrece os crentes. Com isso, um grupo escolhe o que lhe convém do Antigo Testamento, outro escolhe outra parte e assim por diante.
Lembre-se de que o cristão deve saber manejar bem ou dividir bem a Palavra de Deus para não cair nesses erros.
O que falta a esses “pastores” e “ministros” do sistema religioso denominacional é o entendimento que me faltaria se eu tentasse socorrer um acidentado e tentasse reconstruir seu corpo. Por não ser médico, eu acabaria costurando os órgãos nos lugares errados, na ordem errada e para cumprirem funções erradas. O resultado seria um corpo bem ao estilo Frankenstein. Assim são as denominações existentes na cristandade, e é assim que muitos de seus ministros tentam explicar a Bíblia, sorteando os versículos que mais lhe agradam e que se encaixam em suas doutrinas pré-estabelecidas.
Quanto a isso, o apóstolo Paulo instrui Timóteo da seguinte forma: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2 Timóteo 2.15).
A versão de J. N. Darby, se traduzida para o português, ficaria assim: “Esforça-te diligentemente para apresentar-te aprovado a Deus, como obreiro que não tem de que se envergonhar, cortando com precisão a palavra da verdade”. Nesta versão, a imagem que temos é de um bisturi nas mãos de um hábil médico que separa os órgãos corretamente, de acordo com seu lugar, posição e função.
A primeira edição da Bíblia em inglês, publicada em 1535 por iniciativa do Rei Tiago da Inglaterra, ou “King James”, trazia um prefácio de Miles Coverdale que trazia um conselho semelhante: “Será de grande auxílio para entenderes as Escrituras se atentares não apenas para o que é dito ou escrito, mas de quem e para quem, com que palavras, em que época, onde, com que intenção, em quais circunstâncias, e considerando o que vem antes e o que vem depois”.
Sendo assim, não se pode querer entender a Bíblia como um saco de versículos que você sacode, mistura e tira dali uma passagem qualquer para embasar uma doutrina. Como escreveu Coverdale, é preciso saber “de quem e para quem, com que palavras, em que época, onde, com que intenção, em quais circunstâncias, e considerando o que vem antes e o que vem depois”.
Quando aprendemos sobre a história do Brasil, a professora começa falando de Cabral e do descobrimento, e não da Operação Lava-Jato, para que não surja alguma dúvida de que Cabral ela está falando. Assim acontece com a revelação de Deus. A revelação de Deus nas Escrituras foi progressiva e dada em etapas.
Um bom livro para entender melhor este tema é o livro "A Ordem de Deus", de Bruce Anstey. Link abaixo para baixar de graça ou comprar impresso:
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– JP Padilha
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