A INCOERÊNCIA DO LIVRE-ARBÍTRIO | JP Padilha



Antes de iniciar as considerações, é necessário definir alguns termos:

Livre-arbítrio – Crença de que a vontade humana é livre e tem um poder inerente de escolha entre alternativas. Ou seja, o poder de escolha contrária ou a liberdade da indiferença. A vontade é livre de qualquer causação necessária, seja interna ou externa.

Autonomia – Qualidade da vontade ou do intelecto que o capacita a funcionar a favor ou contra qualquer curso particular de ação, por meio disso exibindo uma capacidade inata de optar por si mesmo o seu destino.

Independência – Estado ou condição de não depender de algo ou alguém. É a liberdade de agir por conta própria, sem subordinação a outras entidades. Trata-se do poder de agir sem a necessidade de aprovação ou controle de terceiros.

Autossuficiência: A capacidade de suprir as próprias necessidades sem depender de outros.

Definições postas, vamos ater-nos aos pontos-chave que levam à incoerência do livre-arbítrio:

A ideia do livre-arbítrio é de que dele depende a responsabilidade humana. Porém, quando se questiona a origem dessa responsabilidade, tem-se como argumento que ela procede do livre-arbítrio. Está formado o argumento circular vicioso.

Para o arminiano, Deus não atropela o “soberano” livre-arbítrio do homem. Logo, a vontade humana não tem causação externa. Dessa forma, estão asseguradas a integridade e a responsabilidade do homem. Porém, se isso não é tolice, é presunção, porque Deus sempre fará toda a Sua vontade e nada nem ninguém pode-lhe frustrar a vontade (Is 46.9-10), ao passo que o homem é sempre escravo, seja do pecado, seja da justiça (Rm 6.17-18).

A vontade se move por si mesma em resposta ao que a mente conhece, e pode causar tanto a ação em resposta às influências como resisti-las. O que nos leva à pergunta: Se o conhecimento intelectual [aqui incluídas a moral e a ética] será o ponto de partida, o princípio avaliativo da vontade, como a vontade será livre? Esse conhecimento sempre virá de uma fonte externa e provavelmente virá como um argumento verdadeiro ou falacioso. Se o conhecimento for corrompido, manipulado ou integral, quais são as bases para que ele seja correto? Será possível eu ter esse conhecimento inato do que é certo e errado sem qualquer influência externa? A vontade não poderá ser “induzida” pelo conhecimento adulterado? Ainda que esse conhecimento seja bíblico, no sentido das informações corretas, o intelecto pode não processá-las legitimamente e induzir a vontade a uma escolha errada.

Para que o homem pudesse escolher de forma neutra, seria necessário que não tivesse nenhum conhecimento, que sua mente fosse vazia – um ponto morto, mas, aí entra a questão: Como a vontade poderia se decidir sem nenhuma base? Na sorte, deixada a cargo do acaso seria a opção. Visto a liberdade espontânea do livre-arbítrio, podemos somente nos remeter ao acaso. Todavia, como seríamos responsáveis, já que não temos nenhuma influência causal na decisão?

Portanto, a teoria do livre-arbítrio destrói a responsabilidade humana em vez de apoiá-la. Como posso ser responsabilizado por ações surgidas de um livre-arbítrio que, pelo fato de ele ser livre, não está sob o meu controle? (nem sob o controle divino também, na visão do arminiano).

Se um argumento pode levar a vontade a se decidir, onde está a neutralidade moral? O argumento causou a escolha. A própria Bíblia deveria ser desconsiderada pelos defensores da teoria do livre-arbítrio, visto ser ela a fonte da Lei Moral, a qual estabelece o significado de bem e mal e leva-nos à compreensão do que é a santidade e o pecado. Ela nos influenciará decididamente na escolha entre o que é santo e o que é pecaminoso. Logo, onde está a neutralidade? E ficam perguntas: Deus é neutro? As Escrituras são neutras? O mundo é neutro? Em qual aspecto da vida, seja eterna ou temporal, se percebe neutralidade moral? Ou se está sob a influência do bem, ou sob a influência do mal. Não existe nada que seja moralmente neutro; que pratique atos neutros [sem efeito algum].

Portanto, é ilógico dizer que a vontade humana seja neutra, visto sê-la influenciada por Deus ou Satanás. Senão, por que Davi, Isaías e Paulo diriam que todos pecaram [todos!] e destituídos estão da glória de Deus? (Sl 14.2-3; Is 59.2-11; Rm 3.23; 5.12). Se todos pecaram, somos todos pecadores e a nossa vontade está corrompida, deteriorada, sob a influência do pecado e sem a menor possibilidade de ser neutra e poder escolher o bem. Para que o arminiano não concorde com isso, ele terá de rejeitar a Bíblia como a Palavra inspirada de Deus.

A questão não é se podemos escolher, mas como e de que forma escolhemos. E se somos pecadores, a nossa escolha será sempre na direção do pecado, “porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser” (Romanos 8.7). Dessa forma, a Bíblia afirma que o homem natural é um pecador, o qual é desprovido da capacidade de obedecer a Deus, tornando-o moralmente responsável, tenha ou não capacidade moral. O homem será sempre condenável diante de Deus se não obedecê-lo, ou seja, a desobediência aos princípios morais estabelecidos pelo Criador é que o torna responsável por seus delitos. A responsabilidade moral não está baseada na capacidade moral (que o homem natural não possui) ou no livre-arbítrio (que nenhuma criatura possui), mas na autoridade e soberania de Deus que determinou a não-obediência aos Seus mandamentos como a causa pela qual o homem ímpio será condenado e tornado indesculpável.

Por isso, pode-se afirmar seguramente que o livre-arbítrio é indefensável, ilógico e não-factível. A vontade humana é livre em qual sentido? Por exemplo, consideremos um hindu que nasceu no hinduísmo e cuja família se submete ao regime de castas, e crê na divindade de um inseto. Qual seria a sua capacidade natural de não escolher adorar ao inseto? Para que isso acontecesse, ele teria de ser confrontado pela Verdade e reconhecer que tanto o sistema de castas como a adoração ao inseto é uma tolice, uma mentira que o quer manter escravizado na ignorância acerca de Deus.

Se ele não for confrontado pela verdade (e a verdade é externa), ele jamais se livrará da mentira. Pelo fato da mentira ser o que ele tem por verdade, transmitida por sua família e clã (externamente) essa crença o influenciará a sempre pensar nos seus pressupostos como verdadeiros, quando o que tem são falsas premissas a induzi-lo ao engano.

Onde está a neutralidade para que ele possa escolher livremente? Se o livre-arbítrio é o movimento da mente em certa direção, a neutralidade poderia levá-lo a essa direção? As influências externas à mente, as quais está sujeito, determinarão a sua decisão. Sendo assim, está claro que esse movimento da mente não é livre e que ninguém toma decisões livres, mas todos nós estamos sujeitos à influência; a fatores causais.

Muitos arminianos têm certeza de que possuem o livre-arbítrio apenas porque presumiram tê-lo; e garantem que não sofrem nenhuma espécie de influência em suas decisões “livres”. Porém, fica a pergunta: Quem tem a certeza de que não está sujeito, ainda que minimamente, a influências que afetariam a sua vontade? Por exemplo, estar sob o efeito de medicamentos, bactérias e vírus, ou sob a ação de partículas subatômicas ou cósmicas. Ou seja, para que essa neutralidade fosse “livre”, teria que, no mínimo, ser onisciente e conhecer exaustivamente tudo, a fim de se ter certeza de não haver alguma causa a operar sobre a vontade humana, muito antes de ser confrontado pela cosmovisão cristã. Como nenhum ser humano é onisciente e apenas Deus o é, o suposto livre-arbítrio não pode levar jamais o homem a uma escolha neutra, sem influências ou antecedentes, sem que se detenha qualquer pressuposição.

Para que a escolha fosse neutra, seria preciso que não houvesse o conhecimento e o sentido de bem ou mal (a Lei Moral). O hindu, sobre a influência do hinduísmo, entenderá o mal como o bem, e o bem como o mal. Pessoas como este hindu “fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo!” (Isaías 5.20). Por si só, ele jamais poderá compreender e entender (interiormente) o significado verdadeiro e real do que é bem e mal a fim de escolher entre um e outro.

O livre-arbítrio em si mesmo não detém nem o bem nem o mal, como algo neutro manteria o indivíduo numa posição de falta de escolha, de ausência de vontade, onde ele permaneceria num ponto vago, numa posição sem solução, incapaz de se definir, porque nada lhe é identificado; e assim, se está nesse ponto morto, como será levado a agir? Em que bases? Se é neutra, não é causada; logo, qualquer semelhança com o acaso não é mera coincidência. E se a mente é levada a agir pelo acaso, como poderá ser responsabilizada?

A afirmação “se nós não temos o livre-arbítrio, não podemos ser responsáveis pelas nossas ações” é verdadeira? Em qual sentido? Quem a provou como verdade? E uma pergunta muito mais explícita ainda: À luz das Escrituras, qual a relação entre responsabilidade e liberdade? Onde elas aparecem e onde estão especificadas a sua conexão?

São perguntas que o arminiano não se dispõe a responder. Para ele, basta estabelecer o axioma, e pronto. Provar para quê?

Por essas e outras, o livre-arbítrio é incoerente e incapaz de levar o homem a lugar algum. Como teoria autonomista, não encontra respaldo bíblico, sustentando-se apenas e tão somente pelo seu apelo humanista, ou seja, antibíblico, porque nada mais é do que o desejo de se ter um poder para decidir independentemente, chegando à blasfêmia de se cogitar até mesmo uma autonomia sem a intervenção de Deus. A teoria do livre-arbítrio não passa de uma estúpida pretensão ou delírio diabólico, cujo único objetivo é tornar o homem um “deus” independente e livre de Deus, o que felizmente é impossível.

– JP Padilha
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