INTRODUÇÃO
A Bíblia é a única base da doutrina cristã. Por isso, se o conceito formulado sobre as Escrituras for errado, todas as outras doutrinas serão afetadas de modo negativo.
Daí percebe-se a importância da concepção sadia da Bíblia. Quando ela não é considerada do modo como exige, não pode servir de base para a conservação da “sã doutrina” (Tt 2.1).
Intimamente ligada à doutrina está a vida diária do cristão. O comportamento do crente deve ser um exemplo de doutrina posta em prática. Portanto, se uma pessoa não tiver uma ideia correta acerca da Bíblia, isso também influenciará o seu modo de andar.
Com efeito, a Bíblia deve ser para o cristão um manual de padrões para a vida. Se não for assim, o homem estará à mercê dos seus próprios modos errados e pecaminosos de pensar, os quais fatalmente o conduzirão à ruína.
Deve ser lembrado que há pessoas que, apesar de professarem um conceito sadio da Bíblia, vivem em desacordo com isso. É claro que essas pessoas envergonham o Evangelho. Suas vidas espirituais são um verdadeiro fracasso.
A REVELAÇÃO
Revelação é, basicamente, o desvendamento de algo que era desconhecido ou a manifestação de alguma coisa que estava escondida. No contexto judaico-cristão essa palavra é usada para se referir à comunicação que Deus faz de si mesmo e da sua vontade. Assim, em termos teológicos, a revelação é um processo por meio do qual Deus desvenda ao homem seu caráter e seus desígnios. O resultado desse processo também é chamado de revelação.
Para fins de estudo, a revelação de Deus se divide em dois aspectos:
A revelação geral: Refere-se ao testemunho que Deus dá si mesmo a todos os homens por meio da criação (Rm 1.19-20), da sua providência na história (At 14.15-17) e da consciência humana (Rm 2.14-15). A revelação geral alcança todos os homens em todos os lugares (Sl 19.1-6), mas não tem conteúdo redentor. O máximo que ela faz é expor alguns atributos de Deus, tornando os homens indesculpáveis por rejeitá-lo (Rm 1.20-23).
A revelação especial ou específica: Refere-se ao desvendamento do caráter e do plano de Deus na história da redenção (Sl 78; 107), na pessoa de Cristo (a expressão máxima da revelação – Jo 1.18; 14.9; Cl 1.15; 2.9; Hb 1.1-3) e nas Escrituras Sagradas (2Tm 3.16; 2Pe 1.20-21). A revelação especial tem conteúdo salvífico, ou seja, é possível alguém compreender o plano redentor de Deus por meio dela (2Tm 3.15). Contudo, ainda que destinada a todos, a revelação especial alcança efetivamente um número limitado de pessoas.
A INSPIRAÇÃO
Conforme visto, a Bíblia compõe a revelação especial de Deus, tendo sido inspirada por ele. Quando se diz que a Bíblia é inspirada por Deus, isto significa que o Espírito Santo supervisionou aquilo que os autores bíblicos escreveram nos autógrafos, isto é, nos escritos originais (as cópias não foram inspiradas) de tal modo que eles o fizeram sem cometer qualquer erro. Deus não ditou as palavras da Bíblia (apenas poucas partes foram provavelmente ditadas – e.g., a Lei), nem tampouco os autores bíblicos entraram em estado de êxtase para escrever os livros.
O que Deus fez na realidade foi mover (2Pe 1.21) ou dirigir os escritores para que compusessem sua revelação usando suas personalidades, culturas e faculdades mentais. Desse modo, pode-se dizer que Deus falou através do homem (Mt 1.22; 2.15;1Co 14.37).
É importante destacar que não é correto dizer que os autores bíblicos foram inspirados por Deus. O termo “inspirados” se aplica apenas aos livros bíblicos. Seus autores foram movidos ou impelidos (Gr. ferómenoi) pelo Espírito Santo. Alguns textos bíblicos que servem de base para esse ensino são Mateus 5.18; 22.43; 2Timóteo 3.16; 2Pedro 1.20-21 e Hebreus 1.1.
Hoje não existe nenhum fragmento sequer dos escritos originais. Todos se perderam ao longo dos séculos. O que se tem agora são cópias, a maioria delas preparada por homens zelosos e habilidosos. Para se chegar ao texto original um trabalho científico denominado crítica textual tem sido realizado nessas cópias e em fragmentos delas. Graças à ação de Deus em preservar sua Palavra (1Pe 1.24-25) e aos esforços da crítica textual, o conteúdo dos autógrafos foi mantido acessível com precisão praticamente total.
O crente deve ter sempre em mente que a Bíblia, por ser divinamente inspirada, é:
Inerrante: Não há erros na Bíblia, seja no campo da ciência, da geografia, da história ou da filosofia (Jo 10.35; 17.17).
Infalível: O que a Bíblia ensina não conduz as pessoas ao erro. Nos caminhos e soluções que prescreve, ela nunca falha, de modo que a pessoa que a obedece pode caminhar segura, sabendo que está seguindo um mapa que a leva na direção certa. Ademais, suas promessas e profecias nunca falham. O que ela diz acerca do amanhã, certamente se cumprirá (Nm 23.19; Sl 119.9,11; Mt 5.18; Tt 1.2).
Além disso, uma vez que Deus a destinou a criaturas inteligentes com o objetivo de lhes transmitir verdades essenciais, a Bíblia também é interpretável. Isso significa que há um sentido específico (e não vários!) em cada porção do texto sagrado. Esse sentido pode ser descoberto por meio do emprego das regras normais de hermenêutica, usadas, inclusive, pelo próprio Cristo (Mt 22.41-46).
É verdade que há trechos difíceis de entender, mas isso não autoriza ninguém a dar ao que foi escrito o sentido que achar mais conveniente, distorcendo as Escrituras (2Pe 3.15-16). Antes, o leitor deve buscar o significado pretendido pelo autor sagrado, sabendo que esse significado é claro na maioria das vezes e compõe a mensagem do próprio Deus ao homem.
Por ser inspirada, inerrante, infalível e interpretável, somente a Bíblia pode ensinar o que é correto acerca do Deus único e verdadeiro. Assim, qualquer crença que a rejeite jamais poderá levar o homem ao real conhecimento da divindade.
A CANONICIDADE
Sendo inspirados por Deus, os livros da Bíblia são dotados de canonicidade. O termo “cânon” vem do hebraico (qaneh) e do grego (kánon) e significa, basicamente, vara de medir ou régua. Com o tempo, essa palavra passou a ter um significado mais amplo, indicando também uma norma ou padrão de qualquer natureza (Gl 6.16).
Assim, quando se afirma que um livro é canônico, isso significa que deve ser usado como uma régua para “medir” a validade do que o homem crê e faz.
Deve ficar bem claro que a canonicidade dos livros bíblicos não lhes foi imposta por homens. O fato de Deus tê-los produzido usando o processo da inspiração visto acima é que lhes confere canonicidade. Os homens simplesmente reconheceram essa qualidade presente nos livros bíblicos desde a sua produção. Aliás, mesmo os escritores bíblicos tinham consciência da autoridade de seus escritos por serem revelação de Deus. Isso se pode ver, por exemplo, em 2Samuel 23.2; 1Coríntios 2.13 e 14.37.
Para reconhecer um livro como canônico foram usados os seguintes critérios:
Autoria profética ou apostólica: Para ser reconhecido, o livro deveria ser escrito por um profeta, por um apóstolo ou por alguém sob a autoridade de um apóstolo (por exemplo, Marcos escreveu seu evangelho sob a autoridade do apóstolo Pedro).
Aceitação: Para ser reconhecido, o livro tinha que ter ampla aceitação entre o povo de Deus. O reconhecimento da igreja em geral foi considerado fator muito importante, uma vez que o Senhor manifesta sua direção por meio do povo santo.
Conteúdo: Para ser reconhecido, o livro tinha que mostrar harmonia doutrinária com a ortodoxia já fixada. Livros que apresentassem desvios ou negação de doutrinas consagradas foram rejeitados.
Inspiração: Para ser reconhecido, o livro tinha que dar evidências de origem divina, falando com autoridade e apresentando valores morais e espirituais elevados, próprios de uma obra inspirada pelo Espírito Santo.
O CÂNON
Enquanto o termo canonicidade se aplica a uma qualidade sobrenatural dos livros bíblicos, a palavra “cânon” é usada para se referir ao conjunto de livros que compõem tanto o Antigo como o Novo Testamento.
A Bíblia é composta por 66 livros. Dessas obras, 39 fazem parte do Antigo Testamento e 27 do Novo. Os livros do Antigo Testamento são classificados da seguinte maneira:
CLASSIFICAÇÃO DOS LIVROS BÍBLICOS
PENTATÊUCO: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio (São os cinco livros de Moisés).
HISTÓRICOS: Josué, Juízes, Rute, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis, 1 e 2 Crônicas, Esdras, Neemias e Ester.
POÉTICOS: Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes e Cantares (Os livros de Provérbios e de Eclesiastes são também chamados de Sapienciais).
PROFÉTICOS: Isaías, Jeremias, Lamentações de Jeremias, Ezequiel, Daniel, Oseias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias (Lamentações de Jeremias foi escrito na forma de poesia).
EVANGELHOS: Mateus, Marcos, Lucas e João.
ATOS (Foi escrito por Lucas)
EPÍSTOLAS PAULINAS: Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, 1 e 2 Tessalonicenses, 1 e 2 Timóteo, Tito e Filemom.
EPÍSTOLAS GERAIS: Hebreus, Tiago, 1 e 2 Pedro, 1,2 e 3 João e 1 Judas.
APOCALIPSE (Foi escrito por João)
O judaísmo ortodoxo não aceita os livros do Novo Testamento. Já o catolicismo romano, desde o Concílio de Trento (1545-1563), recepciona os livros apócrifos que são 13 obras (incluindo fragmentos de livros) escritas durante a época do Império Grego (também chamado de período interbíblico) e que não são reconhecidas nem pelo judaísmo, nem pelo protestantismo.
O termo “apócrifo” significa “oculto” e os livros sob essa designação são os seguintes: 1 e 2 Esdras, Tobias, Judite, adições a Daniel (Salmo de Azarias, Cântico dos Três Jovens, História de Susana, Bel e o Dragão), adições a Ester, Oração de Manassés, Epístola de Jeremias, Baruque, Eclesiástico (Siraque), Sabedoria de Salomão e 1 e 2 Macabeus. Alguns manuscritos da Septuaginta incluem 3 e 4 Macabeus e os Salmos de Salomão.
A CONCEPÇÃO DE JESUS ACERCA DAS ESCRITURAS
Jesus expressou uma concepção extremamente elevada das Escrituras. No tocante a isso, os Evangelhos mostram o seguinte:
1. Jesus usou a Escritura para repudiar as tentações de Satanás (Mt 4.1-11).
2. Jesus realçou a perenidade da Lei Mosaica e dos Profetas (Mt 5.17-18), tornando esses escritos comparáveis às suas próprias palavras (Mt 24.35).
3. Jesus destacou que o testemunho de todo o Antigo Testamento acerca dele se cumpriria (Lc 24.44).
4. Jesus aprovou a visão de que nas Escrituras se encontra a vida eterna (Jo 5.39).
5. Jesus afirmou que o Espírito Santo falou através dos autores bíblicos (Mc 12.36).
6. Jesus aceitou a historicidade de eventos bíblicos considerados questionáveis na atualidade (Mt 12.39-41; Mc 10.6; Lc 17.26-27; Jo 6.49).
7. Jesus defendeu a inerrância (ou, talvez, a integridade. Cp. Tg 2.10) da Escritura dizendo que ela não pode ser desmembrada (Jo 10.35).
8. Jesus destacou a importância de se conhecer profundamente a Escritura (Mt 22.29).
9. Jesus valorizou detalhes gramaticais e palavras específicas do texto bíblico (Mt 5.18; 22.31-32, 43-45).
10. Jesus garantiu a composição inerrante do Novo Testamento, dizendo que enviaria o Consolador que guiaria os apóstolos nessa tarefa (Jo 14.26; 16.12-15).
A ILUMINAÇÃO
Iluminação é o ministério do Espírito Santo de capacitar o homem que é alcançado por sua graça a compreender a revelação escrita de Deus.
Essa obra é necessária porque as verdades da Palavra pertencem a uma dimensão que está muito acima do alcance da mente humana (Is 55.8-9), sendo conhecida somente pelo Espírito (1Co 2.11). Por isso, sem o auxílio do Senhor não há como o homem acolher o que foi revelado (Lc 24.44-45; 1Co 2.12).
Pra piorar a situação, Satanás cega o entendimento das pessoas, impedindo--as de compreender o evangelho (2Co 4.3-4). É por causa disso que os incrédulos, não tendo a ação iluminadora do Espírito, não conseguem entender nem mesmo as verdades espirituais mais elementares (1Co 2.14).
A iluminação do Espírito Santo na mente do homem por ele favorecido é iniciada, assim, ao tempo da conversão, quando o conhecimento da pessoa é aclarado, passando ela a enxergar as realidades espirituais do evangelho (At 16.14; 2Co 3.15-16; 4.6; Hb 10.32). A partir daí, a ação do Espírito Santo de trazer luz à mente do crente prossegue (Ef 1.17-19), fazendo-o entender mais e mais a verdade revelada e também levando-o à aceitação dela, fatores essenciais para o crescimento na vida cristã (2Co 3.18; Cl 1.9-10).
CUIDADO! VENENO!
Liberalismo teológico: Ensina que a revelação de Deus acontece por meio de fatos que se situam dentro da ordem natural das coisas. Segundo os liberais, os escritores antigos testemunharam esses fatos e os interpretaram como milagres, adicionando-lhes uma dimensão sobrenatural inexistente. Por isso, as descobertas da ciência, da filosofia e da psicologia da religião devem ser usadas para corrigir as ideias distorcidas dos autores bíblicos, removendo do texto bíblico tudo que é mitológico (demitização ou desmitologização).
Neo-ortodoxia: Ensina que Deus só pode ser conhecido quando sua Palavra viva, o Cristo eterno, se encontra pessoalmente com o indivíduo. A Bíblia descreve essa experiência na vida de vários de seus personagens e assinala o caminho para esses encontros existenciais. Dessa forma, as Escrituras contêm testemunhos da revelação divina feita a homens do passado e, na medida em que servem para levar o indivíduo a um encontro com Deus, são revelação também hoje. Há, assim, dois momentos de revelação: um passado (as experiências registradas na Bíblia) e um presente (desde que, lendo a Bíblia, o homem tenha um encontro com Deus).
Movimentos sectários e heréticos: A seitas e os movimentos heréticos que se dizem cristãos geralmente adotam um livro além da Bíblia, atribuindo-lhe o mesmo grau de autoridade que dizem reconhecer nas Escrituras. É assim com os mórmons que creem na natureza sacrossanta do Livro de Mórmon. É assim também com os Adventistas do Sétimo Dia que consideram como proféticos os escritos de Hellen G. White. Outros movimentos heréticos põem certas pessoas, entidades ou tradições no mesmo pé de igualdade das Escrituras. Esse é o caso do romanismo que confere autoridade divina à sua tradição e também ensina a doutrina da infalibilidade papal. Também é o caso das Testemunhas de Jeová que consideram o conselho que as preside, o chamado Corpo Governante, como detentor de autoridade sobrenatural. Na prática, ainda que digam estar sujeitos à Bíblia, esses movimentos tendem a situar seus livros e líderes muito acima das Escrituras.
“O conhecimento aprofundado da Bíblia vale mais do que um diploma universitário”. – Theodore Roosevelt
Traduções espúrias: O fato de existirem milhares de manuscritos bíblicos antigos faz com que pequenas diferenças surjam entre um e outro. São as chamadas variantes textuais. Ao lidar com essas variações, nem sempre o trabalho da crítica textual é conclusivo, o que faz com que os tradutores da Bíblia tenham eventualmente que escolher qual texto deverão adotar em seu trabalho. Ocorre, porém, que não raro os tradutores divergem em suas opções, o que faz com que traduções diferentes apareçam. Outras vezes, o leque de significado de um termo ou de uma expressão hebraica ou grega é muito amplo e o tradutor tem que escolher a alternativa que acredita ser a melhor. Naturalmente, nem sempre os tradutores fazem a mesma opção e, mais uma vez, traduções bíblicas distintas aparecem (ARA, ARC, ACF, NVI, NTV...). Nada disso é condenável ou errado. Na verdade, dificuldades assim são comuns em qualquer esforço de transmitir a mensagem dada em uma língua por meio de outra totalmente diferente. Ademais, é preciso lembrar que, mesmo havendo um campo textual que admita diferentes traduções, esse campo é limitado e jamais afeta a mensagem central das Escrituras. O que se deve evitar, porém, são as traduções espúrias, ou seja, traduções que, sem a menor base textual, gramatical ou semântica, fazem acréscimos e alterações na Bíblia com o fim (às vezes declarado!) de transmitir conceitos errados e até blasfemos. É o caso da versão Novo Mundo das Escrituras Sagradas (NM), tradução feita pelas Testemunhas de Jeová. Essa tradução remove ou altera descaradamente qualquer expressão que aponte para a divindade de Cristo ou do Espírito Santo. Há também traduções feministas que evitam a referência a Deus como Pai e chamam Cristo de “a criança de Deus”, em vez de Filho. São as chamadas versões com “linguagem inclusiva”. Em tempos recentes, até mesmo paráfrases repletas de gírias e palavrões (e.g., Bíblia Free Style) têm sido preparadas sob o pretexto de alcançar pessoas que usam esse tipo de linguagem. Esses esforços, porém, sequer podem ser chamados de traduções, posto que em nada reproduzem a real mensagem do texto sagrado para a língua a que se propõem traduzi-la.
Continua em: CAPÍTULO
2 – A DOUTRINA ACERCA DE DEUS (Teontologia)
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ÍNDICE – PEQUENO
MANUAL DE DOUTRINAS BÁSICAS | Marcos Granconato